Poemas e Poesias


26/08/2008


Fresta

Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.

Fernando Pessoa

Escrito por Jorge Tadeu às 17h20
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Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
e um dia me acabarei.

Cecília Meireles

Escrito por Jorge Tadeu às 17h19
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Antes de Amar-te...

Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

Pablo Neruda

Escrito por Jorge Tadeu às 17h18
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Anseios

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!
Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!
Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbres o brilho do luar!...
Não 'stendas tuas asas para o longe...
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar...

Florbela Espanca

Escrito por Jorge Tadeu às 17h18
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Anjos do Céu

As ondas são anjos que dormem no mar,
Que tremem, palpitam, banhados de luz...
São anjos que dormem, a rir e sonhar
E em leito d'escuma revolvem-se nus!
E quando de noite vem pálida a lua
Seus raios incertos tremer, pratear,
E a trança luzente da nuvem flutua,
As ondas são anjos que dormem no mar!
Que dormem, que sonham- e o vento dos céus
Vem tépido à noite nos seios beijar!
São meigos anjinhos, são filhos de Deus,
Que ao fresco se embalam do seio do mar!
E quando nas águas os ventos suspiram,
São puros fervores de ventos e mar:
São beijos que queimam... e as noites deliram,
E os pobres anjinhos estão a chorar!
Ai! quando tu sentes dos mares na flor
Os ventos e vagas gemer, palpitar,
Por que não consentes, num beijo de amor
Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?

Álvares de Azevedo

Escrito por Jorge Tadeu às 17h17
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Um beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto...

Olavo Bilac

Escrito por Jorge Tadeu às 17h14
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Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira

Escrito por Jorge Tadeu às 17h13
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Iniciação amorosa

A rede entre duas mangueiras
balançava no mundo profundo.
O dia era quente, sem vento.
O sol lá em cima,
as folhas no meio,
o dia era quente.

E como eu não tinha nada que fazer vivia
namorando as pernas morenas da lavadeira.

Um ida ela veio para a rede,
se enroscou nos meus braços
me deu um abraço,
me deu as maminhas
que eram só minhas.
A rede virou,
o mundo afundou.

Depois fui para a cama
febre 40 graus febre.
Uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas,
girava no espaço verde.

Carlos Drummond de Andrade

Escrito por Jorge Tadeu às 17h12
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EU ESCREVI UM POEMA TRISTE

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Mario Quintana

Escrito por Jorge Tadeu às 17h11
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Um pouco de William Shakespeare

a doença do não escutar... o que me aflige.

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Deuses imortais! Rogo por mim e por ninguém mais.

que jamais cresça em meu peito um coração que

confie num juramento ou numa afeição.

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A dúvida prudente é considerada o farol do sábio.

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A natureza humana geralmente carece de poder

para igualar as estranhas criações da imaginação.

A liberdade indócil é domada pela própria desgraça.

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A fortuna é puta nobre, Nunca se abre para um pobre.

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É comum perder-se o bom por querer o melhor.

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Da loucura dos grandes não se pode descuidar.

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Chorar é diminuir a profundidade da dor.

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A teia de nossa vida é composta de fios misturados: de bens e de males.

Nossas virtudes se tornariam orgulhosas sem os açoites

de nossos defeitos, como os nossos vícios desesperariam,

se não fossem alentados pela virtude.

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A reflexão melhor trabalha nos seres mais frágeis.

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A vida dele era mansa e os elementos,

estavam tão fundidos nele que poderiam

levantar-se e dizer a todo mundo:

"Ele era um homem".

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Apagaram-se as velas da noite e o dia levanta-se,

pé ante pé, nos enevoados topos das montanhas.

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Conservar algo que possa recordar-te seria

admitir que eu pudesse esquecer-te.

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Dizem que a velhice é a segunda infância.

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A glória do tempo é acalmar os reis em conflito.

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A liberdade indócil é domada pela própria desgraça.

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Aquele que gosta de ser adulado é digno do adulador.

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Bem-pago está quem por satisfeito se dá.

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Choramos ao nascer porque chegamos a

este imenso cenário de dementes.

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A paz não pode ser mantida pela força;

só pode ser conseguida pela compreensão. 

Escrito por Jorge Tadeu às 17h09
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Realidade

Em ti o meu olhar fez-se alvorada

E a minha voz fez-se gorgeio de ninho...

E a minha rubra boca apaixonada

Teve a frescura pálida do linho...

Embriagou-me o teu beijo como um vinho

Fulvo de Espanha, em taça cinzelada...

E a minha cabeleireira desatada

Pôs a teus pés a sombra dum caminho...

Minhas pálpebras são cor de verbena,

Eu tenho os olhos garços, sou morena,

E para te encontrar foi que eu nasci...

Tens sido vida fora o meu desejo

E agora, que te falo, que te vejo,

Não sei se te encontrei... se te perdi...

Florbela Espanca

Escrito por Jorge Tadeu às 17h06
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Por decoro

Quando me esperas, palpitando amores,

E os lábios grossos e úmidos me estendes,

E do teu corpo cálido desprendes

Desconhecido olor de estranhas flores;

Quando, toda suspiros e fervores,

Nesta prisão de músculos te prendes,

E aos meus beijos de sátiro te rendes,

Furtando às rosas as purpúreas cores;

Os olhos teus, inexpressivamente,

Entrefechados, lânguidos, tranqüilos,

Olham, meu doce amor, de tal maneira,

Que, se olhassem assim, publicamente,

Deveria, perdoa-me, cobri-los

Uma discreta folha de parreira.

Arthur Azevedo

Escrito por Jorge Tadeu às 17h05
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Poemas para todas as mulheres

No teu branco seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos...
Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o [cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora!

Poema extraído do livro "Vinicius de Moraes — Poesia completa e Prosa", Editora Nova Aguillar — Rio de Janeiro, 1998, pág. 262.

Escrito por Jorge Tadeu às 17h02
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13/03/2008


Uma frase

“Tenho prazer em ser vencido quando quem me vence é a razão, seja quem for seu procurador”.

Fernando Pessoa

Escrito por Jorge Tadeu às 23h23
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Declaração de Amor

Esta é uma declaração de amor;
amo a língua portuguesa.
Ela não é fácil. Não é maleável.
E, como não foi profundamente trabalhada pelo
pensamento, a sua tendência é a de não ter sutileza
e de reagir às vezes com um pontapé contra
os que temerariamente ousam transformá-la
numa linguagem
de sentimento de alerteza.
E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro
desafio para quem escreve.
Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e
das pessoas a primeira capa do superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado.
Às vezes assusta com o imprevisível de uma frase.
Eu gosto de manejá-la - como gostava de estar
montando num cavalo e guiá-lo pelas rédeas,
às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse
ao máximo nas minhas mãos. e este desejo
todos os que escrevem têm.
Um Camões e outros iguais não bastaram para
nos dar uma herança de língua já feita. Todos nós
que escrevemos estamos fazendo do túmulo do
pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do
encantamento de lidar com uma língua que não foi
aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever
e me perguntassem a que língua eu queria pertencer,
eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como nasci
muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro
para mim que eu queria mesmo era escrever em português.
Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só
para que minha abordagem do português
fosse virgem e límpida.

Clarisse Lispector

Escrito por Jorge Tadeu às 23h21
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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, JABAQUARA, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, Spanish
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